Gabriel Farah é o diretor do primeiro torneio ITF BT 400 do Paraná. Em 2015, foi também responsável por organizar a primeira competição de beach tennis do Estado. Formado em Educação Física, até 2017, ele dividia seu tempo entre o esporte e a administração da Farah Turismo, agência de viagens tradicional de Curitiba, da qual sua família é proprietária. Conheceu Marcela Vita em 2013, em decorrência de seu namoro com Rafaela, sua irmã. Vita ainda jogava tênis e, juntos, mergulharam no processo de transição definitiva de Marcela das quadras para as areias. Desde 2016, ele foi o primeiro coach a acompanhar uma atleta nos torneios do circuito profissional. Além disso, integrou o comitê de atletas da CBT – Confederação Brasileira de Tênis, ao lado de Joana Cortez e Vini Font. Em 2018, decidiram abrir a Vita Beach Sports, academia especializada em beach tennis. Hoje (12 anos depois), Marcela Vita é uma das principais jogadoras do circuito mundial, e o método Vita de treinamento tornou-se referência em todo o Brasil. O Paraná, aliás, é o estado que tem mais beach tenistas em atividade no país. Na primeira semana de fevereiro, além do BT 400, Gabriel organizará mais quatro torneios no mesmo local. O Grand Prix BT 400 dará início às comemorações dos 75 anos da Federação Paranaense de Tênis.
Você tem mania de ser pioneiro em tudo?
Eu tenho sempre no meu coração que a gente tem que fazer o melhor. E acho que consegui colocar isso dentro do coração da Marcela também. Meu objetivo é alcançar a excelência tanto dentro como fora de quadra.
Como aconteceu a parceria? Você começou a namorar uma irmã e casou com duas?
Exatamente! Quando comecei a namorar a Rafaela, em 2010, Marcela tinha ido fazer faculdade nos Estados Unidos com bolsa atleta, só a conheci em 2013. Havia acabado de se formar, conheceu o beach tennis em Barcelona e se apaixonou. Ela começou a dar aula no Parque Barigui, em Curitiba, e ensaiava os primeiros passos na carreira de beach tenista profissional. Sempre soube do seu potencial, sabia desde o início que ela seria uma grande atleta. É importante mencionar que o cenário era bem diferente, outra época, antes da pandemia. Pouca gente jogava beach tennis. As competições importantes aconteciam na Europa, Ilhas Reunião e Aruba. No Brasil, apenas dois torneios ITF haviam sido realizados em 2010, um em Florianópolis e outro em Búzios.
E como surgiu a ideia de abrir uma arena? Em 2018, em Curitiba, só havia uma academia especializada com quatro quadras e poucos praticantes…
A Marcela sempre sonhou em ter uma academia, e eu queria montar uma estrutura que facilitasse seu treinamento. Comecei a procurar o terreno em 2018 e, em março de 2019, inauguramos a Vita Beach Sports.
Mas você imaginava tudo isso?
Olha, como já te falei, eu quero sempre o melhor. Meu foco era a carreira da Marcela. Tudo isso foi construído para dar suporte a ela. Treinamento, preparação física e mesmo o aporte financeiro para as viagens. O resto aconteceu naturalmente, fruto de muito trabalho e dedicação.
Como nasceu o Método Vita?
O Método Vita foi lançado em 2019. Recebeu este nome porque nada mais é do que a sistematização dos treinos que eu dava para Marcela e outros atletas, como Marcelo Reck, desde 2016. Hoje temos 24 professores em Curitiba e mais 80 pelo Brasil afora utilizando nosso método.
Você sempre disse que a sua paixão é o treinamento em quadra…
No início, minha dedicação era quase total para a carreira da Marcela, mas eu ainda era diretor da agência de turismo. Depois, migrei apenas para o trabalho com ela e na academia, mas as coisas foram tomando proporções maiores e tive que abrir mão dos treinos dela para tocar a academia, organizar torneios e todos os projetos que precisavam ser desenvolvidos.
Quais são esses projetos?
A Federação Paranaense de Tênis realiza um trabalho excepcional em todo o estado. Muito mais do que uma entidade esportiva, é uma forte aliada e batalha junto pelo crescimento do tênis e do beach tennis. Silvio Souza, o vice-presidente, é um cara atuante e que apoia demais o beach tennis. Somos parceiros há mais de 10 anos e é incrível tudo que conseguimos realizar. Para você ter uma ideia, em 2025, ano em que comemoramos os 75 anos da Federação, estão programados 100 torneios de beach tennis, sendo 27 ITF. O interclubes de beach tennis, nos mesmos moldes do de tênis, ano passado teve 2700 jogadores inscritos, um possível recorde mundial. Trabalhamos muito também na profissionalização do esporte, tanto na preparação de atletas que desejam ser profissionais quanto na excelência da formação de técnicos e professores. É um trabalho imenso e nós, como empresários do setor, precisamos estar presentes para contribuir.
E a Copa das Federações? A equipe do Paraná sempre se destaca…
Tenho um carinho imenso por esta competição. Para desenvolver o esporte de forma sólida, precisamos apoiar todas as categorias, tanto amadoras quanto profissionais. Em 2024, a Copa das Federações recebeu mais de 1500 atletas de todos os 26 estados e do Distrito Federal, um avanço enorme na adesão. Embora nem sempre os estados possam levar atletas de todas as categorias, é essencial que todos participem. Vencemos em 2022 e 2023. Em 2024, batemos na trave, ficamos em segundo lugar, apenas quatro pontos atrás do campeão Rio Grande do Sul. Ano passado, garantimos passagem, hotelaria, ajuda de custo e uniforme para todos os atletas. Havia também treinadores e um preparador físico. Levamos também a torcida, bumbo e bateria. Um time de verdade! É importante ressaltar e agradecer o apoio incansável dos atletas Marcela Vita, Vitória Marchezini, Giovanni Cariani e Marcelo Reck, que, além de competir, se dedicaram a apoiar a delegação. Marcela joga esse torneio desde o início, mesmo muitas vezes sabendo que não tínhamos condições de ganhar. Foi muito legal vê-la com a Vitória torcendo para a categoria C. Uma curiosidade que muita gente não sabe é que a Vitorinha, antes de se tornar profissional, jogou a Copa pelo Paraná no sub-14, na categoria C, e depois na B.
Realizar o primeiro BT 400 não é tarefa simples; alguns organizadores ainda reclamam das dificuldades e outros se retiraram. Você, ao contrário, está fazendo quatro torneios diferentes, isso sem contar com o amador.
Para mim, é um orgulho imenso organizar um torneio como esse e receber os atletas aqui no Paraná. Pois eu sei o quanto é importante para o desenvolvimento do esporte a nível local e nacional. Temos experiência, e o apoio da Federação, repito, é imprescindível. São muitas pessoas investindo tempo e recursos. Porque, ao contrário do que possa parecer, a gente não faz isso aqui para ganhar milhões. Às vezes enfrentamos até prejuízos. Em 2022, quando ainda não havia o BT 400, fizemos um BT 200 que era a maior premiação da época e vieram todos os TOPs. Venceram Gianotti/Spoto e Daina/Nobile. Em 2024, fizemos outro 200, vencido dessa vez por Nobile/Casadei e Branco/Russo. Em 2023, tivemos que cancelar o evento com tudo pronto. Fomos criticados pela decisão em cima da hora, mas tentamos ao máximo. Caíram barreiras na estrada e o percurso de uma hora até a praia estava levando quatro horas, um caos. Nosso erro foi não ter desistido antes. Em 2024, também tivemos problemas com a chuva em Caiobá, mas para este ano até isso está previsto. Entretanto, temos que ter em vista que este esporte é na praia e na praia estamos sujeitos a intempéries.
Teremos novidades?
Queremos oferecer um salto de qualidade. Percebo que ainda existem muitas reclamações dos atletas em relação à falta de cuidados técnicos. Ter a Marcela com a gente é um diferencial. Com certeza, ela nos traz algumas percepções mais sutis que outros organizadores podem não ter acesso. Meu sonho é fazer um torneio semelhante ao de Aruba em que os atletas fiquem a semana inteira com disputas de simples, dupla mista, times etc. Estamos indo nessa direção. Por enquanto, trabalhamos em alguns detalhes que espero possam fazer diferença para os jogadores. Na área destinada aos atletas teremos uma estrutura física composta por três espaços: descanso, fisioterapia e alimentação. Também teremos quadras de aquecimento e vamos entregar bolas de treino na chegada para as duplas. Minha proposta é deixar dois cestos de bolas nas quadras de aquecimento, mas não tenho certeza se vai funcionar.
Sua pupila Marcela Vita vai jogar com a italiana Flaminia Daina, o que é um sonho seu desde 2018. Mesmo não sendo mais o treinador da Marcela, como se sente?
Estou muito feliz! Sempre acreditei que essa parceria iria acontecer. Vai dar certo! Foram muitos anos na beira da quadra; a transferência foi natural. Minha vontade era fazer algo que impactasse realmente a vida das pessoas e, com isso, fui levado para a parte mais estrutural do esporte. Minha trajetória ao lado da Marcela é linda. Ela se tornou uma atleta respeitada, tricampeã mundial. Tudo isso foi construído com muito amor. Senti uma alegria muito rara quando vi Marcela e Rafa vencerem a final da Copa do Mundo. Ali entendi que o esporte pode proporcionar a mesma felicidade do que a de um médico quando salva uma vida.